"...é concebível que acabemos descobrindo mais e não menos mulheres autistas, assim que examinarmos melhor; talvez a célebre vantagem feminina na linguagem e inteligência social proteja algumas mulheres, nascidas com a herança genética do autismo, excluindo-as da categoria diagnosticável de "autismo de alto funcionamento" e incluindo-as na forma disfarçada e não manifesta do distúrbio.(...)" (John J. Ratey e Catherine Johnson, no livro "Síndromes Silenciosas", p.235 Ed. Objetiva)
"A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana dos quais só os diferentes são capazes. Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois". (Arthur da Távola)

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terça-feira, 9 de março de 2010

Relacionar-se amorosamente...sendo autista ou com um autista: A história do meu casamento!

Quando eu e meu marido nos conhecemos já estávamos cansados de tantos relacionamentos frustrados, e resolvemos ficar juntos e enfrentar todas as diferenças para ver se desta vez entenderíamos o que acontecia para tantas experiências fracassadas no nosso passado.
Ele com uma filha sendo criada pela mãe dele e eu com um filho sendo criado pela minha mãe.
Nós dois nos identificávamos muito, mas hoje sabemos que estas "semelhanças" todas são as características de um Asperger e uma autista de alto funcionamento e verbal.
Meu marido tem um auto controle que eu gostaria de adquirir, e ele diz que eu tenho uma facilidade maior para demonstrar o que sinto, estas são nossas "diferenças" e o que nos une são elas.
O que me destrói e deprime é que eu me expus muito por toda minha vida, errei muitas vezes, morei em várias cidades, fui embora sem a coragem de retornar nem para visitar tamanha era a minha falta de capacidade de me relacionar.
Pelo que eu percebo os Aspergers são mais controlados, apesar também de saber que cada ser humano é realmente um universo, exemplo disso é uma informação que a terapeuta da escola especial que a minha filha freqüenta me passou, ela é a única criança autista da escola que não suporta reunir-se com grandes grupos em eventos coletivos, característica esta que suponho que ela tenha herdado de mim, pois eu não consigo estar em desfiles de rua, não gosto de shows ao ar livre com multidões, das festas de fim de ano com a família toda reunida, se eu participo quase sempre me arrependo pois sempre dou vexame.
Eu sinto que "quase sempre", quando tento me aproximar do meu marido, pois eu sou muito falante e como todo autista, eu muitas vezes foco demais num assunto e sou insistente e repetitiva e eu sei que isso é INSUPORTÁVEL pra ele, mas como temos aquele "pacto" inicial de irmos até o fim, vamos enfrentando, agora depois do diagnóstico da minha filha e da nossa descoberta, está mais digno o relacionamento, antes nós pensamos inúmeras vezes em nos separar.
E é por isso tudo que eu posso dizer que para dar certo um relacionamento afetivo com um autista é preciso muita sinceridade e coragem, se não for possível a princípio contar sobre sua característica, aos poucos vc deveria ir expondo sua maneira de ser, para que a pessoa que você quer se relacionar não se afaste por achar que só te incomoda ou achar que sempre está invadindo seu espaço, pois eu até hoje acho que a maioria da vezes estou incomodando meu marido com meus
"ismos"(comportamentos repetitivos do autista ), o "ismo" que eu tenho que mais incomoda meu marido Asperger é falar muito a mesma coisa e querer que ele me responda sempre!rsrs
Bom, a minha intenção é de dividir tudo isso com vocês é tentar ajudar alguém que possa estar interessado em se relacionar com um membro da nação autista, ou algum autista que esteja querendo se aproximar de alguém!
Boa sorte a todos!
Abraço!
tidymae@hotmail.com

6 comentários:

  1. Seus depoimentos são muito importantes!
    Por favor nao pare de dividir suas experiências!
    Ficom me perguntando se é assim que as crianças que eu atendo se sentem mas não conseguem compartilhar!

    Será que você poderia falar um pouco mais da sua infância.
    Quem sabe através do seus olhos eu possa compreendê-las...

    Muito obrigada!!

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  2. ADOREI O SEU BLOG, TENHO UMA LINDA FILHA DE 7 ANOS AUTISTA QUE FAZ MUITAS PERGUNTAS E FALA MUITO COM ESTRANHOS. VOCÊ FALAVA COM ESTRANHOS TAMBÉM? ESTE COMPORTAMENTO PODE MUDAR?
    ELA AINDA NÃO APRENDEU A LER E ESCREVE O SEU NOME, DEVE TER ALGUM ATRASO MENTAL. A FONO DE MINHA FILHA DISSE QUE ELA PRECISA DE MEDICAÇÃO PARA AJUDAR NA ATENÇÃO E AJUDAR EM SUA ALFABETIZAÇÃO. SERÁ QUE É NECESSÁRIO MESMO? NOS ASSUNTOS DE SEU INTERESSES TEM UM GRANDE PODER DE CONCENTRAÇÃO.

    ADRIANA
    E.mail: adrianapnc@oi.com.br

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  3. abelhinha guedes (perfil do orkut)5 de novembro de 2010 09:45

    Muito bom!!sou asperger e nunca consegui contatar pessoas na minha idade com a síndrome,só vejo falar em crianças... mas elas crescem e não mudam muito não, eu particularmente piorei e só em 2008 é que descobri essa disfunção, lógico a minha vida já era um caos. meu irmaão mais velho tb tem a síndrome, mas coitado é considerado louco, até pela família; eles generalizam os problemas mentais, e isso não nos ajuda em nada.tb nasci em 71, mudei milhões de vezes para milhoes de lugares, sofri muitas perdas, hoje eu tento me perdoar, mas sempre me encontro remoendo erros bobos, gafes constrangedoras, verdades óbvias que não me dava conta etc; e esforço muito para ser o mais normal possível.bjs

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  4. meu marido e muito calado,ele conversa muito pouco,e não olhar no olho,começou trabalhar com 28 anos,e ja mudou de unidade no trbalho 3x e as pessoas não gostam dele,não tem amigo,passa o maior tempo de folga na internet so site de disco,tem um quarto cheio de disco,por favor me ajude ele pode sindrome de asperger.

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  5. O comentário está anônimo por isso não posso responder, se quiser pode me enviar um e-mail: tidymae@hotmail.com
    Abraço!

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  6. Boa tarde Grace. Achei seu blog agora, por acaso, procurando pela questão apresentada na novela e ME CHOQUEI! Li a aba do blog, vi as perguntas, tudo q vc escreveu e me surpreendi, pois a maioria dos comportamentos apresentados, e as respostas às perguntas da pesquisa é SIM. Sempre me senti esquisita (e fui reconhecida e tratada assim pelos outros, familia inclusive). Tenho problemas de comun icação e socialização desde criança e nas festas familiares (a começar pelo natal que não suporto e me dá panico) até o meu aniversario de 15 anoso, que eu travei e não consegui nem agradecer a minha prima que fez todos os enfeites e arranjos da festa, até o enterro do meu pai, e por aí vai, minha formatura, casamento da minha filha, etc. Estou preocupada, será que aos 58 anos vou descobrir que estou no espectro autista? Rita

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Autismo de alto funcionamento:

"Eu gostaria de acentuar que chamar este transtorno de autismo de alto funcionamento, é inadequado porque o termo sugere que o autismo é de alto funcionamento, que o autismo é leve, quando na verdade o que você está querendo é denominar uma pessoa de alto funcionamento com autismo.

Então, essa pessoa pode ter um bom QI ou uma boa compreensão verbal ou uma boa expressão verbal, mas seu autismo é normalmente tão grave quanto o de uma pessoa descrita com autismo de baixo funcionamento.

Então, por favor: usem alto funcionamento para a pessoa, não para o autismo, de maneira a permitir uma compreensão mais profunda de quão grave o autismo pode ser, mesmo para alguém com Síndrome de Asperger..."

(Dr. Christopher Gillberg, em out/2005 no auditório do InCor em SP)

Dr. Simon Baron-Cohen, diz no seu livro "Diferença essencial: a verdade sobre o cérebro de homens e mulheres.":

"...Dirijo uma clínica em Cambridge para adultos com suspeita de serem portadores da síndome de Asperger. Esses indivíduos não tiveram os problemas detectados na família nem na escola enquanto ainda eram crianças.

Assim, atravessaram a infância e a adolescência aos trancos e barrancos, e chegaram à idade adulta acumulando dificuldades, até serem encaminhados à nossa clínica, desesperados pela falta de integração, por se sentirem diferentes.

Na maioria dos casos, esses paciente sofrem também de depressão clínica, já que não encontram um ambiente, em termos de trabalho e de companheiro(a), que os aceite em sua diferença. Querem ser eles mesmos, mas são forçados a "vestir" um personagem, tentando desesperadamente não ofender, dizendo ou fazendo a coisa errada, e ainda assim, sem saber quando vão receber uma reação negativa ou ser considerados" seres estranhos".

Muitos deles se esforçam em administrar um enorme conjunto de regras relativas ao comportamento em cada situação, e consultam de minuto a minuto uma espécie de tabela mental, buscando o que dizer e o que fazer. É como se tentassem escrever um manual de interação social baseado em regras de causa e efeito, ou como se quisessem sistematizar o comportamento social, quando a abordagem natural à socialização deve ser através da empatia.

Imaginem um livro bem grosso de etiqueta sobre como agir em jantares,...mas escrito em detalhes, para cobrir todas as eventualidades do discurso social.

Claro que é impossível aprender tudo, e embora alguns desses indivíduos brilhantemente quase consigam, acabam fisicamente exaustos. Quando chegam em casa depois do trabalho, onde fingiram interagir normalmente com os colegas, a última coisa que querem é socializar. Só pensam em fechar a porta do mundo e dizer as palavras ou praticar as ações que tiveram de reprimir o dia todo.

Gostariam que os outros dissessem o que pensam e que eles pudessem fazer o mesmo; não entendem porque não podem.

É difícil para eles compreender como uma palavra sincera pode ofender ou causar problemas sociais."...

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


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