"...é concebível que acabemos descobrindo mais e não menos mulheres autistas, assim que examinarmos melhor; talvez a célebre vantagem feminina na linguagem e inteligência social proteja algumas mulheres, nascidas com a herança genética do autismo, excluindo-as da categoria diagnosticável de "autismo de alto funcionamento" e incluindo-as na forma disfarçada e não manifesta do distúrbio.(...)" (John J. Ratey e Catherine Johnson, no livro "Síndromes Silenciosas", p.235 Ed. Objetiva)
"A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana dos quais só os diferentes são capazes. Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois". (Arthur da Távola)

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sábado, 10 de abril de 2010

Identidade revelada

Até a publicação anterior eu assinei meu blog como Tidy, pseudônimo criado a partir da sigla T.I.D. que significa Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, no qual o Espectro Autista se encontra.

O fato de não assinar minhas publicações, me fazia sentir que continuava vivendo num mundo paralelo, mundo este que eu pretendo sair.

Percebi que preciso aprender a ser eu mesma em todas as horas, e para alguém que possa estar achando estranho eu estar afirmando que nem sempre sou eu mesma, eu gostaria de explicar o fato:
"Ser autista", podendo se dizer também numa visão metafísica ou mais espiritualizada, "estar autista", é uma condição, porém optamos ou nos obrigamos, a nos comportar dentro dos padrões de comunicação pré estabelecidos pela sociedade por uma questão de sobrevivência, mas nem sempre é a maneira que sentimos, então ficamos como se fôssemos adestrados ou robotizados.

Muitas vezes optamos por não nos comunicar, pois nem sempre podemos expressar o que sentimos, e quando expressamos quase sempre somos violentamente rejeitados, rechaçados, hostilizados, repreendidos, questionados, contestados, excluídos.

Eu vou arriscar fazer um comentário, o diagnóstico de autismo tem sido feito nos dias de hoje, em crianças , e podem até dizer que "virou moda", mas para mim fica claro que muitas pessoas hoje convivem com um comportamento depressivo, compulsões, vícios e podem ser autistas sem diagnóstico, que são obrigados a viver nesta condição, por falta de diagnóstico, pela ignorância de si mesmo.

"CONHECE-TE A TI MESMO"
Ah! como eu busquei por isso, vivi na ignorância de mim mesma até os dias de hoje!!

Peço encarecidamente aos pais de crianças autistas que por algum motivo queiram esconder ou questionar isto, que não façam, e se for difícil assumir para o mundo, e eu até entendo, mas não deixem de esclarecer a criança, pois a pior coisa é a ignorância de si mesmo.
Eu vivi na ignorância pois o autismo só começou ser diagnosticado através do Código Internacional de Doenças há uns dez anos.

A minha filha é autista chamada "clássica", e por mais absurdo que pareça eu as vezes agradeço este fato, porque mesmo assim nós somos questionados se ela não é somente uma criança mimada, imagina se ela tivesse que passar pelo mesmo que eu , passei a minha vida toda tentando justificar para mim e para o mundo as minhas atitudes consideradas infantis e imaturas.
Vivi numa busca interminável e insuportável de esclarecimento sobre a minha condição, e hoje começo a descansar minha mente inquieta.

Nesta semana uma mãe me procurou para saber o que fazia para definir o diagnóstico de sua filha de cinco anos, pois ela possui linguagem verbal, é super inteligente e não tem comportamento estereotipado e enquanto conversávamos com uma psicóloga e ouvíamos a explicação de que o comprometimento da mente autista é em três aspectos:
-Socialização, Imaginação e Comunicação, etc, etc...

A mãe disse quase como se falasse para si mesma:
"...Eu sempre achei que minha filha viveu conosco como se fosse um satélite, uma "luazinha", orbitando a nossa volta, ela nunca se incluiu em nenhuma atividade da família, e eu só tive certeza disto quando tivemos a nossa segunda filha..."


Eu fiquei pensando:
Até quando viveremos como satélites na vida das pessoas?...
Se fala em inclusão, em acabar com preconceitos, mas e quando não se enxerga o que tem que ser aceito e respeitado?
Aparentemente não temos nenhum problema...

Abraços e fiquem com Deus!

P.S.: O e-mail para contato continuará sendo tidymae@hotmail.com, fico a disposição.

5 comentários:

  1. Oi querida!
    Cada vez mais te admiro por ser quem es, por deixar eu te conhecer, e trocar comigo suas experiêcias!
    Não seria nossa missão gritar ao mundo que existimos?
    Só nós poderemos ajudar nossos filhos e aqueles que ainda estão por vir.
    Vc tem razão se ficarmos escondidos somente circulando de longe ninguém nos conhecerá!

    Não podemos chamar as pessoas de preconceituosas e nem de ignorantes,pois somente "conhecendo" é que podemos querer a mudança há muitas síndromes pelo mundo, veja , eu só conheci essa pq meu filho veio me apresentá-la.
    E com ela qta coisa mudou, e qta gente maravilhosa conheci, uma delas é vc beijão grandão!

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  2. Olá Grace.
    Amei te conhecer, e principalmente o seu discurso! Voce é linda!
    Através de voce , podemos chegar no mundo do autista.
    Muitos cientistas dizem que o cerébro do autista é inflamado. Mas este cerébro inflamado se o é (???) , está vivo e tem todas as emoções humanas.E preciso respeito e compreensão para estas pessoas.
    E conseguir falar sobre isso é a melhor coisa . É libertação. E as pessoas que hoje te escutam vão entender mais o autismo.
    Parabéns Grace por sua coragem! Tenha certea que voce contribui para mais entendimento do autismo!
    Beijos.
    Ray mãe de Filipe

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  3. OI TIDY,QUE BOM QUE AS COISAS ESTAO SE ACALMANDO PARA VC E SUA FAMILIA,ASSIM FICA TUDO MAIS FACIL,NESSA VIDA TAO COMPLICADA QUE VIVEMOS. PARABENS PELA CORAGEM,VOCE É LINDA BEIJOSSSS

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  4. Olá! Fiquei feliz de vc ter se mostrado, não por matar a curiosidade de todos mas simporque isso significa que vc se aceitou e não importa o que os outros pensem, esse blog é a sua cara, a sua vida, os seus desabafos, pensamentos, etc... e agora esse cantinho ficou completo. Gostei de tudo. Gostei da introdução ter passado pro lado, do fundo preto contrastando com o escrito e chamando a atenção prs fotos e etc. Só tenho um pedido fazer. Como TDAH, tenho dificuldade para ler textos grandes e me perco facilmente. Se possível, gostaria que vc desse um espaço entre cada parágrafo assim como a "mãe do autista" fez no coment dela, hehehe. Isso faz eu me organizar mais na leitura e nõ ficar tão ansiosa e atrapalhada para chegar ao fim.

    Comentando sobre o texto: a gente é imperfeito, não existe pessoa perfeita no mundo. De perto ninguém é normal, adoro essa frase do Caetano Veloso. Um dos nossos maiores defeitos é julgar e fazemos isso a toda hora seja pensando a respeito de alguém na rua ou de uma atriz ou ator na novela. Se todos respeitassem mais o próximo ou seguissem o mandamento divino: amai o próximo como a ti mesmo, não se importando se ele é negro, branco, ladrão, presidete da república, colega de trabalho, hiperativo, autista, pobre e etc, iria ser muuuuito melhor. O bom do diagnóstico é ter um norte, é saber quem procurar, que tratamento fazer. Depois podemos resolver o que iremos fazer: chorar pro resto da vida ou lutar e tentar ser feliz pro resto da vida. Como amo muito meu irmão, optei pelo segunda opção.

    Viver em sociedade é importante, se adequar ao modo da maioria é fundamental. Não que a maioria seja correta mas acredito que tivemos a chance de viver mais uma ida pra evoluir. Gosto do jeito dos autistas, de falar tudo na cara, sem verniz social mas sei que isso é complicado e quase ninguém aceita todas as verdades então ensino meu irmão os diferentes tons de voz e que algumas vezes devemos guardar a verdade pra gente, adoro o pensamento concreto dos autistas porque o duplo sentido as vezes causa brigas, fofocas mas tenho que ensinr a ele sobre isso par que ele entenda expressões e piadas e assim por diante.

    O autismo é tratável e por isso acredito que a criança ou adulto está autista. E existe um tratamento completamente natural: alimentação orgânica, sem industrializados, glutem, leite, corante e pouco açúcar. Florais de Bach para acalmar, tirar algns medos e homeoptia para dores, dar sono e etc...

    Agora o "remédio" que mais sucesso na vida de quem está autista é o AMOR. Abrce, beije, incentive, elogie, brinque, sorria, olhe nos olhos, etc. O amor incondicional é capaz de curar!

    Se deixar eu escrevo outro post no coment´rio, hehehe. Tenho que ir pro Kendo! Beijokas!

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  5. Anderson Brandão13 de abril de 2010 17:47

    Minha flor querida, passei pra dizer que estarei sempre te apoiando e vivenciando nossas dificuldades e felicidades... para sempre TIDPAI!!

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Autismo de alto funcionamento:

"Eu gostaria de acentuar que chamar este transtorno de autismo de alto funcionamento, é inadequado porque o termo sugere que o autismo é de alto funcionamento, que o autismo é leve, quando na verdade o que você está querendo é denominar uma pessoa de alto funcionamento com autismo.

Então, essa pessoa pode ter um bom QI ou uma boa compreensão verbal ou uma boa expressão verbal, mas seu autismo é normalmente tão grave quanto o de uma pessoa descrita com autismo de baixo funcionamento.

Então, por favor: usem alto funcionamento para a pessoa, não para o autismo, de maneira a permitir uma compreensão mais profunda de quão grave o autismo pode ser, mesmo para alguém com Síndrome de Asperger..."

(Dr. Christopher Gillberg, em out/2005 no auditório do InCor em SP)

Dr. Simon Baron-Cohen, diz no seu livro "Diferença essencial: a verdade sobre o cérebro de homens e mulheres.":

"...Dirijo uma clínica em Cambridge para adultos com suspeita de serem portadores da síndome de Asperger. Esses indivíduos não tiveram os problemas detectados na família nem na escola enquanto ainda eram crianças.

Assim, atravessaram a infância e a adolescência aos trancos e barrancos, e chegaram à idade adulta acumulando dificuldades, até serem encaminhados à nossa clínica, desesperados pela falta de integração, por se sentirem diferentes.

Na maioria dos casos, esses paciente sofrem também de depressão clínica, já que não encontram um ambiente, em termos de trabalho e de companheiro(a), que os aceite em sua diferença. Querem ser eles mesmos, mas são forçados a "vestir" um personagem, tentando desesperadamente não ofender, dizendo ou fazendo a coisa errada, e ainda assim, sem saber quando vão receber uma reação negativa ou ser considerados" seres estranhos".

Muitos deles se esforçam em administrar um enorme conjunto de regras relativas ao comportamento em cada situação, e consultam de minuto a minuto uma espécie de tabela mental, buscando o que dizer e o que fazer. É como se tentassem escrever um manual de interação social baseado em regras de causa e efeito, ou como se quisessem sistematizar o comportamento social, quando a abordagem natural à socialização deve ser através da empatia.

Imaginem um livro bem grosso de etiqueta sobre como agir em jantares,...mas escrito em detalhes, para cobrir todas as eventualidades do discurso social.

Claro que é impossível aprender tudo, e embora alguns desses indivíduos brilhantemente quase consigam, acabam fisicamente exaustos. Quando chegam em casa depois do trabalho, onde fingiram interagir normalmente com os colegas, a última coisa que querem é socializar. Só pensam em fechar a porta do mundo e dizer as palavras ou praticar as ações que tiveram de reprimir o dia todo.

Gostariam que os outros dissessem o que pensam e que eles pudessem fazer o mesmo; não entendem porque não podem.

É difícil para eles compreender como uma palavra sincera pode ofender ou causar problemas sociais."...

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


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